(Olho por olho - Augusto de Campos)
DANIEL SAMPAIO
Referências
"Certa vez um colega veio me visitar e aproveitei para lhe apresentar minha biblioteca. Entre desapontado e irritado, ele me chamou de sectário, praguejando com a alcunha de epígono (na pior acepção da palavra). As referências dele eram (são) totalmente diferentes das minhas, o que hoje me faz apagar as dúvidas então surgidas – coisa de 4 ou 3 anos. Mas não estou convicto do que leio; antes prefiro digerir a sugestão de John Cage (ChAnGE) e dizer: “não leio para me convencer, mas para mudar a mim mesmo”. Pois bem: as minhas referências se resumem basicamente à “obviedade” do paideuma concreto, visto, revisto e revisado ao longo destes 50 anos. E acredito que grande parte do que se escreveu, e que está basicamente fora dessa “tradição”, é dispensável, salvo aquilo essencialmente ligado à ruptura e à renovação do sensível (vide Um retrato do artista quando jovem e a Educação dos Cinco Sentidos). Pound, Mallarmé, cummings, Joyce, Rilke (dos poemas-coisa), Sousândrade, Kilkerry, Gregório, a poesia provençal, a vanguarda russa, etc. Poesia Pois é Poesia. E dentre todos: Augusto de Campos, a quem devo a lição do anonimato e a de sempre lutar por causa perdida.
Provavelmente a literatura me surgiu de família. Minha avó materna escrevia e lia muita coisa da bíblia cristã. Embora ela desconhecesse tecnicamente a literatura, a poesia etc., não poderia renegar sua presença (sua contribuição para a) em minha formação. Tenho um livro dela – sem pretensão alguma. Gostaria muito que ela soubesse ou tivesse vivido o que hoje acontece comigo; o choro seria escusável. Mas uma grande partida para a literatura, isto é, para a poesia (que daquela se separa) se deu com minha entrada no curso de letras da UFPB. Foi lá que conheci Amador Ribeiro Neto, hoje entre mestre e amigo. Foi ele quem me apresentou a Poesia Concreta; e de certa forma, devo a ele também, senão o início, ao menos a consolidação de minha formação.
Posso especificar algumas obras: Verso Reverso e Controverso (Augusto de Campos). Personae (Ezra Pound). Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis). Um Retrato do Artista Quando Jovem (James Joyce). Re-visão de Kilkerry (Augusto de Campos). Madame Bovary (Flaubert). Teoria da Literatura: formalistas russos (vários). ABC da Literatura (Ezra Pound). A Arte no Horizonte do Provável (Haroldo de Campos). Os Maias (Eça de Queirós). VIVAVAIA (Augusto de Campos). Etc."
Livros de cabeceira
"Sempre estou lendo o Augusto de Campos. E, atualmente, leio bastante James Joyce, tanto no original (com dificuldades) como em traduções. Leio também Música de Invenção, de Augusto de Campos, e Texto Sentido, de Lau Siqueira; e claro, já que sou advogado, os livros de Direito – que não vêm ao caso..."
5 obras fundamentais
1) VIVAVAIA – Augusto de Campos
2) Crônica do Viver Baiano Seiscentista – Gregório de Matos
3) Personae (ou a tradução: Poemas da Hucitec) – Ezra Pound
4) Madame Bovary – Gustave Flaubert
5) Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
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Abaixo, poemas de Ezra Pound, e.e.cummings e os últimos dois de autoria do próprio Daniel Sampaio. O poema visual que abre este post é Olho por olho (1964), de
Augusto de Campos.
Daniel é poeta e reside em João Pessoa, PB. Escreve em seu blog
Ninguagem e acaba de integrar a Antologia de Poesia Brasileira de Início do Terceiro Milênio, organizada pelo poeta
Claudio Daniel, recém-lançada em Portugal.
EZRA POUND
(Os Cantos - trad. José Lino Grunewald)
Canto XLVCom usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva suas faces,
com usura
homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projeta-se do inciso,
com usura
homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
pintura alguma é feita pra ficar
nem pra ela conviver
só é feita a fim de vender
e vender depressa
com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será rançosas códeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva
com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra sua casa.
O talhador não talha sua pedra
o tecelão não vê o seu tear
COM USURA
não vai a lã até a feira
carneiro não dá ganho com usura
a usura é uma peste, usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura
Duccio não veio via usura
Nem Pier della Francesca, Zuan Bellini não pela usura
nem foi pintada La Calunnia assim.
Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis,
Não veio igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St. Trophime
Nem via usura Saint Hilaire.
Usura oxida o cinzel
Ela enferruja o ofício e o artesão
Ela corrói o fio no tear
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
o azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e seu noivo
........................CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens da usura
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e.e.cummings
(trad. Augusto de Campos)
na estrênua brevidade
Vida:
realejos e abril
treva, amigos
eu me lanço rindo.
Nas tintas fio-de-cabelo
da aurora amarela,
no ocaso colorido de mulheres
eu sorrisando
deslizo. Eu
na grande viagem escarlate
nado, dizendomente;
(Você sabe?) o
sim, mundo
é provavelmente feito
de rosas & alô:
(de atélogos e, cinzas)
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DANIEL SAMPAIOàquela que me atinge tigre
eu quero – só de dentes – amarmadilhas
e como ela derreia na relva
cobre do Cobre os olhos cobre com o braço sobre
que o ar queima e quer mais queimar,
amordaço, brônquios e sonhos, um sentimento míssil.